Portugal possui cerca de 250 castas autóctones e, tendo em conta a dimensão do território, apresenta uma diversidade sem paralelo entre os principais países produtores de vinho. Este património e o trabalho desenvolvido para a sua preservação estão em destaque na capa da Revista E, do Expresso, dedicada ao Polo Experimental de Conservação da Diversidade da Videira, da PORVID – Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, em Pegões.

De acordo com os dados apresentados na reportagem, Portugal conta com cerca de 2,7 castas por unidade de área considerada na comparação, enquanto Itália apresenta 1 e Espanha e França 0,4. Em números absolutos, Itália possui mais algumas variedades, mas a relação com a dimensão territorial coloca Portugal numa posição de liderança.
Um “cofre ao ar livre” das castas portuguesas
É em Pegões, numa propriedade com cerca de 140 hectares, que a PORVID desenvolve um trabalho de estudo, conservação e preservação da diversidade genética da videira portuguesa.
O Polo Experimental de Conservação da Diversidade da Videira funciona como uma verdadeira reserva deste património genético. Para além de preservar as castas e a diversidade existente dentro de cada uma delas, permite disponibilizar material fundamental para o trabalho de seleção e para que a viticultura possa responder a desafios como as alterações climáticas, novas doenças e mudanças nas tendências e exigências dos mercados.
A diversidade genética não se limita ao elevado número de castas existentes em Portugal. Dentro de uma mesma variedade podem existir centenas de clones com características distintas. Só da casta Arinto, por exemplo, a PORVID conserva perto de 800 clones, número semelhante ao existente para variedades como Trincadeira, Aragonez e Fernão Pires.
Atualmente, das cerca de 250 castas autóctones identificadas, 65 encontram-se em seleção e ensaios de campo, num trabalho que permite avaliar características como produtividade, acidez, cor, taninos e resistência a doenças. O objetivo da PORVID passa por chegar, a médio prazo, às 100 castas em seleção.
Trabalho português é referência internacional
O trabalho desenvolvido em Portugal assume também uma dimensão internacional. A PORVID colabora com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) na partilha das metodologias utilizadas na conservação e seleção da diversidade da videira, contribuindo para que este conhecimento possa ser aplicado noutros países e regiões vitivinícolas.
Um dos exemplos da importância da seleção é a Touriga Nacional. Outrora pouco procurada devido à sua baixa produtividade, a casta foi alvo de um longo trabalho de seleção e é atualmente uma das grandes referências da vitivinicultura portuguesa. A sua capacidade de adaptação levou mesmo a que fosse autorizada em Bordéus, em França, no contexto da procura de variedades mais preparadas para responder às alterações climáticas.
A preservação da diversidade genética das castas portuguesas representa, assim, não apenas a salvaguarda de um património construído ao longo de séculos, mas também uma ferramenta para preparar a vitivinicultura para os desafios do futuro.
Leia a reportagem de capa da Revista E, do Expresso:
“Por entre as vinhas em Pegões, o cofre ao ar livre onde estão guardadas as castas portuguesas”