O projeto PAGE – Paisagens Agrícolas e Alimentares com Gerações de Mulheres Inovadoras procura compreender e valorizar o papel das mulheres agricultoras na preservação da memória biocultural e das práticas agroecológicas locais.
Autores: Diana Gomes, Cristina Bandeira e Cristina Amaro da Costa | Projeto PAGE

Para este fim, realizaram-se entrevistas de história de vida, fotografia anotada e atividades comunitárias, de modo a avaliar o contributo destas mulheres para a sustentabilidade territorial, no Folhadal, Nelas.
Por memória biocultural entende-se o conjunto de conhecimentos e práticas que ligam natureza, cultura e identidade1. No Folhadal, essa memória é mantida sobretudo pelas mulheres, num contexto onde agricultura, cuidado e entreajuda estruturam a vida quotidiana. As suas trajetórias mostram resiliência perante a modernização agrícola e o despovoamento e evidenciam o papel central que desempenham na continuidade das práticas rurais.
Muitas destas mulheres conciliam, até hoje várias atividades, sendo que a idade não é barreira. “Sempre tive vinha e campo”, relata uma agricultora de 85 anos. A pluriatividade – hortas, vinha, olival, fruteiras e criação de animais – assegura o rendimento familiar e uma economia assente na autossuficiência, onde nada se desperdiça. A venda direta na mercearia local reforça relações de confiança e mantém uma economia de proximidade.
As tarefas agrícolas eram tradicionalmente partilhadas entre famílias e vizinhos, numa dinâmica de entreajuda que marcava vindimas, ceifas ou a apanha da azeitona. Estes momentos, recordados com saudade, revelam como o trabalho rural era igualmente espaço de convivência.
“Era duro, mas era alegre. A gente ajudava-se uns aos outros”. Embora hoje menos frequentes, estas práticas permanecem presentes e continuam a reunir a comunidade.
A herança feminina, reforçada pela antiga ‘fabriqueta de arraiolos’ criada no final do século XX, pelo Padre ali instalado à época, permitiu que as mulheres aprendessem a bordar e obter autonomia económica. As receitas tradicionais – broa, doces de festa ou os ‘torcidinhos’ de Santa Eufémia – continuam a ser preparadas e transmitidas, o que reforça a identidade local. Entre as práticas preservadas, destaca-se a plantação de cabaças, usadas antigamente para transportar água e vinho. São sobretudo mulheres que continuam a semeá-las, a guardar as sementes e a preservar este costume antigo que combina utilidade, estética e memória.
O café da aldeia, gerido há décadas por uma mulher, é hoje um espaço de encontro intergeracional e arquivo vivo da comunidade, onde o passado agrícola permanece presente nas conversas e fotografias expostas. Estes lugares mostram como a sociabilidade feminina sustenta grande parte da vida comunitária.

As histórias recolhidas evidenciam uma agroecologia vivida: reutilização de recursos, partilha da água, diversificação das culturas e cuidado permanente com a natureza. O ciclo do pão – da sementeira ao forno comunitário – e a gestão das regas revelam práticas de circularidade e governança local dos bens comuns. Nas encostas do Dão, a viticultura, com castas tradicionais e a proteção natural das vinhas por pinheiros e carvalhos, evidenciam um modelo de interação equilibrada entre ecologia e cultura, que até hoje se mantém. O plantio de bacelos, realizado de forma tradicional, é outro pilar desta memória biocultural, transmitida de geração em geração. As vindimas continuam a fazer-se todos os anos e demonstram o caráter de trabalho e celebração coletiva. A ligação entre emigração e território marca algumas destas trajetórias. Muitas mulheres viveram e trabalharam fora, sem romper o vínculo com a aldeia. Regressam para cultivar, confecionar receitas aprendidas em família e manter vivas tradições que fortalecem o sentido de pertença.
A memória biocultural do Folhadal representa um recurso ativo para a regeneração rural. O PAGE procurou transformá-la em inovação social, através da ativação da antiga escola primária como espaço comunitário e laboratório vivo. O edifício passou a acolher rodas de conversa, oficinas e, brevemente, a exposição ‘Caminhos para uma Enciclopédia Viva no Folhadal’, para promover a continuidade dos saberes e o encontro entre gerações.
As mulheres agricultoras do Folhadal são, assim, protagonistas da sustentabilidade local e rural. Através das suas práticas agrícolas, alimentares, artesanais e relacionais, garantem a transmissão de conhecimentos essenciais à vitalidade do território. Reconhecer e valorizar estes saberes é fundamental para construir futuros rurais mais justos, inclusivos e sustentáveis.
Agradecimento: Bem hajam a todas as mulheres agricultoras que aceitaram PAGinar este desafio!

Nota: Artigo publicado na edição n.º 144 da Revista Jovens Agricultores da AJAP. A sua reprodução, na íntegra ou parcial, requer autorização prévia da AJAP.