De tantas vezes afirmado, já é um lugar-comum ouvir dizer-se que estamos num processo de transformação digital, que é transversal a todos os setores de atividade, e a agricultura e as florestas não escapam a essa revolução.

António Reis Pereira | Engenheiro Agrónomo e Professor Universitário
De facto, aos poucos, estão a entrar no mundo rural por esse mundo fora ferramentas e abordagens baseadas na utilização de Inteligência Artificial nunca dantes vistas, com reflexos drásticos na facilidade de execução, nos custos e nos resultados. Os exemplos são muitos, em áreas tão dispersas como o maneio de gado (coleiras inteligentes, deteção de doenças através da análise comportamental), a gestão inteligente de culturas (deteção de pragas e doenças através de imagem), a otimização de recursos (gestão de rega e fertilizantes), a previsão climática avançada, a logística (rotas eficientes) ou a robótica agrícola e florestal.
E não é estranho que assim seja, pois, o nível de complexidade em existir, por exemplo, uma máquina autónoma a funcionar nos campos é muito menor do que haver um carro autónomo a circular numa cidade, situação que já existe em várias geografias.
Neste caso, num meio urbano ou num meio onde existam riscos colaterais materiais, como uma autoestrada ou um estaleiro de obras, conceitos de suporte como a autorização para que veículos sem condutor circulem, a infraestrutura física (por exemplo, a ligação a semáforos e aos outros carros), seguros apropriados, RGPD ou interface contínua com o utilizador, são conceitos sem os quais dificilmente um carro autónomo pode circular.
Ao invés, no meio do campo, como os riscos caso algo corra mal são incomensuravelmente menores, porque não há praticamente gente, é menos complexo criar a infraestrutura de suporte para que máquinas autónomas possam operar, o que significa que existindo já bastantes cidades (de países como os Estados Unidos, Singapura, China) onde a mobilidade autónoma é uma realidade, partir para a disseminação no curto e médio prazo de tecnologias autónomas para a agricultura e para as florestas está longe de ser uma impossibilidade, sendo muito mais uma inevitabilidade.
De qualquer forma, continuando com a expansão de máquinas autónomas nos campos, a existência dessas máquinas, sendo importante, é só um dos fatores para que o seu funcionamento seja uma realidade, ou seja, a tecnologia em si é importante, mas ainda mais importante é a criação do ecossistema que permite que possam trabalhar.
Esse ecossistema envolve a existência de sensores para perceção do ambiente da operação, um mapeamento prévio desse campo de operação, capacidade de navegação precisa, as máquinas poderem funcionar automaticamente, terem possibilidade de comunicação e controlo remoto e possuírem um módulo de inteligência artificial para poderem tomar decisões de acordo com a parametrização prévia, incorporando as experiências que forem tendo ao longo das várias operações culturais, melhorando assim continuamente a performance de trabalho.
A reunião destas condições é complexa, e o custo associado, a aversão à inovação e a existência de pessoas capazes de operar com tecnologia, tudo isso, dificulta ainda mais a introdução de máquinas autónomas, mas também é preciso levar em linha de conta que os custos têm uma tendência decrescente, que a tecnologia é cada vez mais user-friendly e que a necessidade faz milagres.
Esta necessidade tem muito que ver com a disponibilidade e com o custo da mão de obra, fundamentais para a competitividade de muitas das culturas para as quais o nosso país tem vantagens comparativas. Ou seja, a tecnologia é mais facilmente adotada onde mais falta faz, e as máquinas de apanha de uva e de azeitona foram bons exemplos de adoção de tecnologia com efeitos absolutamente transformadores.
Em concreto, soluções tecnológicas mais complexas, envolvendo IA, serão adotadas à medida que as operações culturais correspondentes justifiquem os investimentos associados, sendo que, nesta altura, já não existem operações culturais com automatização impossível, sendo tudo uma questão de preço. E isso significa, por exemplo, que quando a escassez ou o custo de mão de obra inviabilizar a apanha de uvas em zonas de elevado declive, colocando em causa a existência de vinhos de alto valor acrescentado, irão seguramente aparecer máquinas de colheita selecionada de uvas capazes de trabalhar nesse ambiente, muito provavelmente adaptadas das atuais máquinas autónomas de apanha de frutos vermelhos.
Ou seja, a existência de tecnologia deixou de ser o fator mais crítico, a inteligência artificial torna possíveis a maior parte das impossibilidades, desde que exista um modelo de negócio as soluções vão aparecer.
Nota: Artigo publicado na edição n.º 142 da Revista Jovens Agricultores, inserido no Dossier Agricultura e Inteligência Artificial. A sua reprodução, parcial ou na íntegra, requer a autorização prévia da AJAP.