“Sem uma nova geração de agricultores, corremos o risco de enfraquecer a nossa capacidade de produção alimentar, as nossas comunidades e economias rurais e a nossa soberania alimentar”. Quem o diz é Christophe Hansen, Comissário Europeu da Agricultura e Alimentação, em entrevista à revista ‘Jovens Agricultores’, reconhecendo que “é difícil aceder à terra” pois “nem sempre há financiamento disponível” sendo que o nível de incerteza “é muito elevado”. Garante também que, no âmbito da atual Política Agrícola Comum (PAC), incluindo o PEPAC, “ainda há margem para reforçar o apoio”. “Isto pode significar reforçar as ajudas à instalação, direcionar melhor o apoio ao investimento ou tornar os instrumentos existentes mais acessíveis”, acrescenta.

Como olha para o problema da renovação geracional da Europa? O que mais o preocupa?
Para mim, a renovação geracional não é um debate político abstrato. Trata-se de saber se a agricultura europeia ainda existirá daqui a 10 ou 20 anos. Sem uma nova geração de agricultores, corremos o risco de enfraquecer a nossa capacidade de produção alimentar, as nossas comunidades e economias rurais e, em última análise, a nossa soberania alimentar. O que mais me preocupa é que muitos jovens se interessam pela agricultura, mas, com demasiada frequência, são impedidos ou desencorajados devido a uma série de obstáculos. É difícil aceder à terra, nem sempre há financiamento disponível e o nível de incerteza é elevado. Quando se junta a isso as pressões decorrentes das alterações climáticas, da instabilidade geopolítica e a volatilidade do mercado, tudo isso se torna um verdadeiro obstáculo. O desafio é, portanto, muito concreto: precisamos de tornar a agricultura novamente uma opção profissional viável e atraente. A agricultura é um negócio. Se os jovens não virem um futuro viável e estável, não correrão o risco de investir. E tornar a agricultura novamente mais atraente não passa apenas pelo apoio financeiro, mas também por garantir rendimentos justos, reduzir os encargos administrativos e melhorar a qualidade de vida nas zonas rurais.
“Com uma população agrícola em envelhecimento (em Portugal), precisamos de acelerar tanto a renovação como a inovação”
Assumiu o cargo de Comissário Europeu da Agricultura e Alimentação com o objetivo claro de renovar a agricultura europeia, focando-se no apoio aos Jovens Agricultores como prioridade estratégica. Em diversas intervenções e entrevistas ao longo de 2025 e início de 2026, destacou que trazer uma nova geração para os campos é “urgente” para garantir a soberania alimentar da União Europeia (UE). Que progressos foram alcançados nesta estratégia?
Desde o início do meu mandato, tenho sido muito claro: é urgente atrair uma nova geração para a agricultura. E isso ficou também patente durante as minhas visitas aos 27 Estados-membros, onde ouvi diretamente dos Jovens Agricultores os problemas que enfrentam. Passámos da identificação do problema para a sua transformação numa prioridade política e para a implementação de uma resposta estruturada. A estratégia de renovação geracional que apresentei, em outubro do ano passado, define claramente como vamos superar os principais obstáculos. Estamos a tomar medidas no domínio do acesso ao financiamento, trabalhando em estreita colaboração com o Banco Europeu de Investimento para desbloquear investimentos destinados aos Jovens Agricultores. Estamos a abordar a questão do acesso à terra, nomeadamente através de uma maior transparência com a criação de um Observatório da Terra da UE e de instrumentos destinados a facilitar a transferência de terras. E estamos a reforçar o apoio à instalação, para que os Jovens Agricultores não sejam deixados sozinhos na fase mais frágil. Isto também requer acesso a competências e conhecimentos. Ao mesmo tempo, estamos a tirar melhor partido da Política Agrícola Comum (PAC) para direcionar o apoio aos Jovens Agricultores e aos novos agricultores, e a apostar na simplificação. Ouço isto em todo o lado: os Jovens Agricultores querem dedicar-se à agricultura, não preencher formulários. E no que diz respeito à futura PAC, estamos a incentivar os Estados-membros a aumentarem a sua ambição, nomeadamente dedicando uma parte maior dos fundos à renovação geracional. Em março, realizou-se um primeiro diálogo financeiro, no qual me reuni com Jovens Agricultores e instituições bancárias com o objetivo de colmatar esta lacuna de financiamento e transformar os obstáculos em soluções práticas. Está previsto outro diálogo para junho, e pretendemos apresentar resultados concretos em termos de instrumentos financeiros, uma questão que foi identificada como um dos maiores desafios da Estratégia.

Os apoios não podem ficar “apenas no papel”
A idade média dos agricultores em Portugal é de 64 anos, enquanto a média da UE é de 57 anos. Que problemas identifica em Portugal relativamente a esta situação e de que forma esta questão tem sido abordada nas suas conversações com o Governo português? No âmbito da PAC e da reprogramação do programa português (PEPAC), considera ainda possível reforçar as medidas de apoio à instalação de Jovens Agricultores?
A situação de Portugal é particularmente marcante, com uma das populações agrícolas mais envelhecidas da Europa e uma percentagem muito baixa de Jovens Agricultores. Isto reflete problemas estruturais, especialmente no que diz respeito ao acesso à terra e ao financiamento e, em algumas regiões, à menor rentabilidade das atividades agrícolas. Foi também esta a conclusão a que cheguei nas duas visitas que realizei a Portugal desde o início do meu mandato. Ao mesmo tempo, quero sublinhar que Portugal tem envidado esforços importantes, especialmente no apoio às pequenas explorações agrícolas e na manutenção da atividade agrícola em todo o território. Isto é essencial. Nas minhas conversações com as autoridades portuguesas, temos-nos centrado sobretudo em soluções práticas. A boa notícia é que, no âmbito da atual PAC, incluindo o PEPAC, ainda há margem para reforçar o apoio. Isto pode significar reforçar as ajudas à instalação, direcionar melhor o apoio ao investimento ou tornar os instrumentos existentes mais acessíveis. O que importa é que o apoio não fique apenas no papel, mas chegue efetivamente aos jovens que desejam iniciar uma atividade agrícola e lhes permita criar explorações viáveis.
“Os Jovens Agricultores querem dedicar-se à agricultura, não preencher formulários”
Defendeu recentemente “pacotes de arranque” obrigatórios para os Estados-membros facilitarem a entrada de Jovens Agricultores no setor. Como será isso feito e em que condições? Trata-se de um modelo standard, igual para todos os países?
O Pacote de Apoio ao Jovem Agricultor é, de facto, uma das medidas emblemáticas da Estratégia de Renovação Geracional. Este inclui ajudas à instalação e ao arranque, incluindo a possibilidade de um montante fixo de até 300 000 euros para a instalação, bem como o acesso a serviços de aconselhamento. Abrange ainda a formação, ações de transferência de conhecimentos, juntamente com o apoio a programas de sucessão e à transmissão de explorações agrícolas. A ideia é simples: quando um jovem começa a dedicar-se à agricultura, deve ter acesso a um conjunto coerente de medidas de apoio. Esses elementos já existem em muitos locais, mas, com demasiada frequência, estão desarticulados. Pretendemos reuni-los de forma clara e acessível. O objetivo é acompanhar os Jovens Agricultores ao longo dos primeiros anos cruciais da sua atividade. Paralelamente, não se tratará de um modelo rígido e único para todos. Cada Estado-membro irá adaptá-lo à sua realidade. Na prática, cada Estado-membro definirá, no âmbito da sua estratégia nacional de renovação geracional integrada no seu plano de parceria nacional e regional, quais as medidas específicas que irá incluir no ‘Pacote de Arranque’ para Jovens Agricultores, com base nas recomendações da Comissão.
O Sr. Comissário considera que a produção agrícola é uma “arma geopolítica” e que os jovens precisam de apoio para investir em tecnologias, aumentar a sustentabilidade e a resiliência às alterações. Num País como Portugal, como olha para o desenvolvimento tecnológico e inovador no setor, atendendo à nossa média de idades (64 anos) e ao índice de rejuvenescimento ser apenas de 3,7%?
A agricultura é, sem dúvida, um setor estratégico. Não utilizaria o termo ‘arma’ para descrever a nossa abordagem, mas temos de ser honestos quanto à realidade em que vivemos: os alimentos são cada vez mais utilizados como instrumento geopolítico. Vimos isso muito claramente com a perturbação causada pela Rússia no Mar Negro, que alterou os fluxos globais de cereais, fez subir os preços e afetou imediatamente não só a Europa, mas também regiões como o Médio Oriente e África. A segurança alimentar não é algo que possamos dar como garantido, especialmente no mundo atual. É por isso que o investimento em tecnologia, sustentabilidade e resiliência é essencial. Os Jovens Agricultores são, muitas vezes, os impulsionadores desta mudança. Mas, como referi, precisam de meios para investir em tecnologia, utilizar ferramentas digitais e desenvolver práticas adaptadas às alterações climáticas. Em Portugal, a situação demográfica torna esta questão ainda mais urgente. Com uma população agrícola em envelhecimento, precisamos de acelerar tanto a renovação como a inovação. Tenho observado esforços positivos, especialmente na gestão da água e na irrigação, como por exemplo a barragem do Alqueva, que é verdadeiramente impressionante. A inovação deve fazer parte da solução e constituir uma oportunidade para aumentar a produtividade, reduzir custos e tornar a agricultura mais atrativa para as gerações mais jovens.

Relativamente aos territórios rurais na Europa, verifica-se um maior envelhecimento na sua população do que nos territórios urbanos, vamos assistindo também a um despovoamento em crescendo, e de igual forma tem-se verificado uma taxa de rejuvenescimento em todas as atividades económicas, incluindo a agricultura. Como sabe, foi lançado pela Comissão Europeia, em 2021, o Pacto Rural Europeu, no sentido de os vários intervenientes nos territórios rurais da Europa analisarem este conjunto de problemáticas e equacionarem soluções para serem debatidas na Comissão Europeia. Atendendo a que em muitos países esta realidade é já bastante acentuada, considera que a Comissão deveria intervir também junto dos Estados-membros, por forma a atenuar e a inverter este despovoamento e abandono dos territórios rurais?
O despovoamento rural é uma grande preocupação em toda a Europa e vai muito além da agricultura. O Pacto Rural Europeu criou uma dinâmica importante, reunindo as partes interessadas para encontrar soluções a partir da base. Mas agora precisamos de ir mais longe e traduzir isso em melhorias concretas no terreno. Para mim, tudo se resume a uma coisa: tornar as zonas rurais locais onde as pessoas queiram viver e trabalhar. Isso significa garantir o acesso a serviços como os cuidados de saúde e a educação, melhorar as infraestruturas e a conectividade e criar oportunidades económicas. A agricultura desempenha um papel central neste contexto, mas a revitalização das zonas rurais requer uma ação coordenada a nível europeu, nacional e local. A PAC já contribui de forma significativa e continuará a fazê-lo. Na nossa proposta para a futura PAC pós-2028, introduzimos uma meta de 10% para as zonas rurais, correspondente a cerca de 48,7 mil milhões de euros, garantindo que o investimento contínuo nas zonas rurais continue a ser uma prioridade. E aproveitamos o que funciona, especialmente o LEADER. O LEADER já provou o seu valor em toda a Europa: 2. 700 grupos de ação local, abrangendo 65% da população rural, a apoiar o emprego, as empresas locais, a inclusão social e a inovação. Continuará a fazer parte da futura PAC e dos planos NRPP ( planos de parceria nacionais e regionais) mais abrangentes, e tornar-se-á obrigatório em todos os Estados-membros, em particular nas zonas rurais desfavorecidas.
Jovens Agricultores: “precisamos de vocês”
Esteve em Portugal em visita às explorações afetadas pelas intempéries que assolaram o País. Comprometeu-se com apoios, mas admitiu haver limitações dos fundos de reserva agrícola de 450 milhões de euros. O que nos pode adiantar sobre as ajudas europeias a Portugal, quando chegam e de que forma?
Estive recentemente no terreno, em Portugal, e devo dizer que foi muito difícil ver todo aquele cenário. Campos inundados, colheitas destruídas, infraestruturas danificadas. Encontrei agricultores que perderam muito, nalguns casos, tudo. Para mim, foi importante estar no terreno e compreender verdadeiramente a dimensão das perdas. Mas também quis estar lá para dizer aos agricultores portugueses: não estão sozinhos. A Comissão Europeia está ao vosso lado e vamos ajudar-vos a reconstruir. Em primeiro lugar, os agricultores afetados continuarão a receber os seus pagamentos da PAC este ano. Trata-se de um apoio essencial num momento muito difícil. Recebemos o pedido de Portugal para ativar a reserva agrícola. Este instrumento existe para situações como esta, mas requer uma avaliação precisa dos danos e, por isso, leva tempo. E, como referiu, a reserva agrícola tem uma dimensão limitada. Mais imediatamente, estamos a trabalhar em estreita colaboração com as autoridades portuguesas para mobilizar outras possibilidades: reorientar os fundos da PAC para apoiar a recuperação, reconstruir infraestruturas e restabelecer a produção. Penso que é igualmente muito importante constatar que os níveis local, nacional e europeu estão a trabalhar em conjunto para encontrar soluções para os agricultores que estão a sofrer profundamente.
Que mensagem deixa aos Jovens Agricultores e Agricultores Portugueses em 2026, e num tempo marcado por vários fatores de instabilidade internacional?
A minha mensagem é muito simples: o vosso trabalho é importante e é reconhecido. Os agricultores europeus, incluindo os portugueses, desenvolvem a sua atividade num contexto cada vez mais complexo e incerto. As alterações climáticas, a volatilidade dos mercados, as tensões geopolíticas – estes são desafios reais. Mas, ao mesmo tempo, o vosso papel é essencial. Vocês garantem a nossa segurança alimentar, gerem as nossas paisagens, como as belas vinhas do Douro, e mantêm vivas as zonas rurais, como no Alentejo. Aos Jovens Agricultores, quero dizer: precisamos de vocês. E estamos a trabalhar para facilitar a vossa entrada e permanência no setor. E a todos os agricultores: a Europa está ao vosso lado. Continuaremos a apoiar-vos através da PAC, a manter um orçamento sólido, a reduzir a burocracia e a criar condições justas para o vosso trabalho. Avançamos juntos e é isso que define a nossa União.
Nota: Entrevista publicada na edição n.º 146 da Revista Jovens Agricultores da AJAP. A sua reprodução, parcial ou total, requer a autorização da AJAP.