Lennart Nilsson, presidente da COGECA – Confederação Geral das Cooperativas Agrícolas, dá uma entrevista à AJAP, em nome da Copa e da Cogeca, na qualidade de voz unida dos agricultores e das cooperativas agrícolas da União Europeia (UE).

A Copa-Cogeca representa milhões de agricultores e milhares de cooperativas agrícolas em toda a UE. Como encara a renovação geracional na Europa?
O nosso Manifesto de Tarragona apresenta a visão da Cogeca para a renovação geracional: 23 objetivos concretos para capacitar os Jovens Agricultores, silvicultores e cooperativistas, proporcionando-lhes viabilidade económica, competências, acesso às cooperativas, apoio financeiro e percursos de liderança. Mas sejamos francos: sem rentabilidade, não há renovação geracional. O Manifesto visa também promover a representação dos Jovens Agricultores nas empresas cooperativas, sublinhando que as cooperativas são fundamentais para envolver jovens de ambos os sexos na atividade agrícola. O reconhecimento da crise por parte da UE é um começo, mas não é suficiente. Os jovens precisam de oportunidades económicas reais, não apenas de boas intenções. A decisão de se dedicar à agricultura é um compromisso para toda a vida, e a Europa deve garantir que seja viável. A UE deve agir agora para tornar a agricultura economicamente sustentável, socialmente gratificante e atraente para a próxima geração. Isto implica melhorar o acesso à terra, ao crédito e à formação para os Jovens Agricultores, simplificar os procedimentos administrativos para reduzir a burocracia, bem como garantir rendimentos justos e estabilidade através de um forte apoio da Política Agrícola Comum (PAC) e de instrumentos de mercado. As medidas de apoio devem ser consideradas no âmbito de abordagens multissetoriais (política de coesão e regional, investigação e inovação) e não devem estar exclusivamente centradas no setor agrícola. A renovação geracional não é apenas um desafio, é uma oportunidade para construir um setor agrícola dinâmico e voltado para o futuro.
“Os jovens precisam de oportunidades económicas reais, não apenas de boas intenções”
Em Portugal, os jovens enfrentam obstáculos como o acesso à terra, ao crédito e a preços dos custos de produção (incluindo energia) dos mais elevados da Europa. Que soluções podem inverter este cenário?
Para garantir a renovação geracional, as perspetivas económicas devem ser viáveis. Nenhum novo agricultor entrará no setor sem a perspetiva de se manter no mercado, mesmo que lhe sejam fornecidas todas as ferramentas de instalação. A Copa e a Cogeca apoiam o direito de permanência e um ‘cheque socioeconómico para Jovens Agricultores’ antes de qualquer futura legislação agrícola, climática ou ambiental. Defendemos pacotes de empréstimos para jovens e novos agricultores, bem como um maior apoio aos jovens e às mulheres agricultoras e às empresas em fase de arranque, e um ambiente fiscal melhorado para os jovens empreendedores. Para reforçar a posição de todos os agricultores enquanto empresários no setor agrícola e nas zonas rurais, é igualmente necessário garantir a igualdade de género e promover um melhor acesso ao financiamento. Além disso, é essencial a oferta de formação e aprendizagem ao longo da vida para a agricultura e profissões afins. Para além do apoio da PAC, devem ser estudadas medidas específicas, a implementar em conjunto com um regime de sucessão agrícola, a fim de acelerar a transição das explorações agrícolas das gerações mais velhas, incluindo apoios colaborativos atrativos e/ou apoios à renovação geracional que beneficiem todas as partes envolvidas. Gostaria também de recordar o papel fundamental das cooperativas agrícolas na ajuda aos Jovens Agricultores a superar os obstáculos à instalação, prestando serviços de apoio e reforçando a sua participação no diálogo político. As cooperativas agroalimentares são empresas detidas pelos seus membros agricultores, que tomam as decisões de forma democrática. Os seus esforços conjuntos são motivados pela necessidade de melhorar a posição dos agricultores na cadeia de abastecimento alimentar, acrescentar valor aos seus produtos, reduzir custos e reforçar a sustentabilidade do setor.
Como olha para a PAC pós-2027 e para o novo Quadro Financeiro Plurianual (QFP 2028-2034), onde se antecipa uma redução do orçamento destinado à Agricultura? Há equidade para todos os Estados-membros? Que impactos estas medidas poderão ter no futuro dos Jovens Agricultores em toda a Europa?
Inaceitável. Os cortes orçamentais propostos pela Comissão para a agricultura no âmbito da PAC pós-2027 e do QFP 2028-2034 constituem uma ameaça direta à segurança alimentar e ao futuro rural da Europa. Não aceitaremos uma PAC enfraquecida. O próximo QFP deve respeitar a estrutura de dois pilares da PAC, com um orçamento específico, reservado e protegido contra a inflação, tal como exigem os Tratados. Uma redução do orçamento fragmentaria o Mercado Único. Os agricultores mais vulneráveis seriam os mais afetados, como os Jovens Agricultores ou as mulheres agricultoras, que já enfrentam obstáculos adicionais à entrada no setor. Sem um financiamento adequado, a PAC não pode ser inclusiva e voltada para o futuro, de modo a garantir que todos os Estados-Membros possam apoiar os seus agricultores e as suas comunidades rurais. A 18 de dezembro de 2025, a Copa e a Cogeca organizaram uma manifestação em Bruxelas, que reuniu 10. 000 agricultores de todos os 27 Estados-membros – um nível de mobilização que não se via desde a década de 1990 -, enviando uma mensagem clara: precisamos de uma PAC forte e bem financiada após 2027, ou não haverá futuro para a agricultura da UE; precisamos de um comércio justo que proteja as normas da UE e os setores sensíveis, bem como de uma simplificação real. Os nossos três documentos de posição sobre o orçamento da UE e a PAC traçam o caminho a seguir. A Europa não pode dar-se ao luxo de falhar ao seu setor agrícola.
A Comissão Europeia pretende, até 2040, duplicar a percentagem de jovens e novos agricultores (passar 12% para 24%), o percentual no total dos agricultores. Perante este cenário: a) Acha este desafio possível a nível europeu? b) O que tem de fazer Portugal para chegar pelo menos a metade dessa fasquia, ou seja 12%? c) Na hipótese de a percentagem de Jovens Agricultores na Europa chegar a 24%, nem que seja menor (22%, 20%, ou até mesmo 15%), vão ter de existir países com 26%, 28%, ou mesmo 30%, para compensar aqueles que nem conseguem atingir 6%, por exemplo. Atendendo a que a Comissão Europeia se preocupa com a situação em cada país, acha que deveria existir um valor de percentual mínimo imposto pela Comissão que deveria ser atingido?
Duplicar o número de Jovens Agricultores até 2040? Isso só será possível com uma mudança radical: rendimentos justos, acesso à terra e incentivos reais. As tendências atuais apontam para um fracasso se não forem tomadas medidas urgentes. Uma abordagem única para todos não funcionará. É importante notar que, no que diz respeito ao acesso à terra, os programas sociais ou a educação também se enquadram nas competências dos Estados-membros, por isso, os Estados-membros e a UE devem trabalhar em estreita colaboração para alcançar os objetivos.
Atendendo à representação do Copa-Cogeca, e ao elevado número de incertezas à escala mundial (guerras, energia, fertilizantes e as alterações climáticas) e à necessidade de ‘produzir mais com menos’, quais são, na vossa perspetiva, as grandes prioridades para a Agricultura europeia no futuro?
Embora a comunidade agrícola europeia seja afetada por guerras nas nossas fronteiras, fenómenos meteorológicos extremos, mercados voláteis, custos crescentes dos fatores de produção e uma instabilidade geopolítica crescente, a agricultura da UE não é negociável. A segurança alimentar é o alicerce de toda a segurança: rural, económica e estratégica. Preservar o orçamento da PAC não é apenas uma questão de política; é uma questão de soberania da Europa. Precisamos de coerência no comércio, de uma simplificação que funcione na prática e de legislação que promova, e não entrave, a inovação e a circularidade. A agricultura não se resume apenas à alimentação, é fundamental para o nosso mix energético e para a bioeconomia. Se a Europa não agir agora, as consequências afetarão gravemente não só as explorações agrícolas europeias, mas também todos os consumidores.
Relativamente aos territórios rurais na Europa, verifica-se um maior envelhecimento na sua população do que nos territórios urbanos, vamos assistindo também a um despovoamento em crescendo, e de igual forma tem-se verificado uma taxa de rejuvenescimento em todas as atividades económicas, incluindo a agricultura insuficiente. Como sabe, foi lançado pela Comissão Europeia, em 2021, o Pacto Rural Europeu, no sentido de os vários intervenientes nos territórios rurais da Europa analisarem este conjunto de problemáticas e equacionarem soluções para serem debatidas na Comissão Europeia. Atendendo a que em muitos países esta realidade é já bastante acentuada, considera que a Comissão deveria intervir também junto dos Estados-membros, por forma a atenuar e a inverter este despovoamento e abandono dos territórios rurais?
A Copa e a Cogeca apoiaram, já em 2023, o Pacto Rural e o Plano de Ação. A agricultura, a silvicultura e a bioeconomia são o ‘coração’ das zonas rurais, impulsionando o emprego, a ação climática e a resiliência económica. Sem explorações agrícolas rentáveis, não há Jovens Agricultores. Sem Jovens Agricultores, não há comunidades rurais. São essenciais investimentos e estratégias específicos que incluam o setor agrícola. As cooperativas, em particular, podem dar resposta a estas necessidades, mas precisam de apoio político.
Que mensagem deixa aos Jovens Agricultores e Agricultores Portugueses em 2026, e num tempo marcado por vários fatores de instabilidade internacional?
Vocês são o futuro da Europa. A Europa precisa da vossa inovação e paixão. Estamos a lutar por regras mais simples, rendimentos justos e um setor onde possam prosperar. Continuem a fazer-se ouvir, continuem unidos, a vossa voz vai moldar as políticas. Sem vocês, não há agricultura.
Nota: Entrevista publicada na edição n.º 146 da Revista Jovens Agricultores da AJAP. A sua reprodução, parcial ou total, requer a autorização da AJAP.