94% do país está em situação de seca meteorológica

Há barragens com a água pelo chão. 94% do país está em situação de seca meteorológica e as zonas do Alentejo e do Algarve são as mais afectadas. Por ali, anseia-se por trovoadas. “Este ano só choveu duas ou três vezes.”

Os dias de sol e céu muito azul sucedem-se iguais aos dias e semanas do mês que passou. No Barlavento algarvio, quem aguardou até ao Natal pela chuva vê passar Janeiro sem que nada mude e espera por Fevereiro como quem espera uma luz.

“Bastaria chover. Como antigamente”, diz o encarregado da Barragem da Bravura, uma das que apresentam níveis mais baixos de todas as barragens do Algarve. Não é homem dado a aparições públicas, nem com o seu nome publicado no jornal, nem com o retrato ao lado da mulher frente à casa, colada à barragem, onde começou como guarda e tem o estatuto de encarregado.

Passaram-se 40 anos, e o ofício pouco ou nada mudou — com o uso do hidrómetro, o registo dos metros cúbicos de água e as quotas diárias junto das entidades públicas que contabilizam, distribuem e projectam o que restará no Verão da água recolhida no Inverno. Com a atenção redobrada na água (ou na falta dela) a tarefa de encarregado de barragem ganhou um outro significado.

O nível baixa todos os anos, diz, sem hesitar. E se, há quatro décadas, havia 23 milhões de m3 de água só para a rega todos os anos, hoje há 10 milhões para repartir pela rega, pelo consumo nas casas, pelos campos de golfe. “A água é como o sol. Quando vem, é para todos”, diz. “Enquanto estive aqui, fui capaz de conhecer as serras e os terrenos com outro tipo de sementeira.”

Eram tempos prósperos, de trabalho árduo para os agricultores. De pouco serviu, porque quase nada ficou, diz com mágoa. Isso era então. “Hoje, imaginemos que não chove no Inverno, e está a crise montada.”

Florival do Ó ainda dá o benefício do que aí pode vir, mas por pouco tempo. “Temos Fevereiro. Março já não conta. Só se tivermos algum tempo de trovoada para as barragens subirem os seus níveis. A chuva que vier depois só em tempestade”, diz o agricultor de Vale de Água, junto à Barragem de Campilhas, mais acima, na bacia do Sado.

Esta é, de todas, a que tem perdido mais. O nível da água ronda os 4% da sua capacidade máxima. Ao largo da cortina de betão, a água toma a forma de um grande charco que se vai perdendo por um vale largo e seco.

A água é invadida por braços de terra onde viajantes encostam as suas autocaravanas e admiram os reflexos do Sol, quando se põe, no castanho da terra árida. “No ano passado, tivemos menos de um terço da produção habitual”, diz Florival do Ó. “Vendemos cereais para as fábricas de rações de animais, Fábrica de Ermidas ou a de Santiago do Cacém.”

Antes, o horizonte era o mesmo, mas para as oportunidades parecia não haver limites.

Cada aldeia tinha uma fábrica de moagem da farinha — Alvalade, Cercal, São Domingos, Ermidas. E era para o pão que semeava e produzia trigo. Agora, a farinha de trigo entra a um preço imbatível e impossível de competir, vinda de Espanha.

“A minha mãe viveu uma vida inteira na terra.” Recorda os tempos em que todas as povoações tinham uma fábrica de moagem. “Semeava-se o trigo, no moinho fazia-se a farinha e em casa fazia-se o pão. Aquilo funcionava mesmo a 100%. O trigo era todo da região, produzia-se a farinha, fazia-se o pão.”

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https://www.publico.pt/2022/01/15/sociedade/reportagem/antigamente-levavase-meses-inteiros-chovendo-1991892

FONTE: In Público